METALINGUAGEM

Escrevo em verso, porque eu quero decidir onde começar e terminar o meu fluxo de sentimento
Esta linha não começa onde se inicia um parágrafo, numa folha delimitada por marcações de margens
Não quero regras quando falo do que sinto
Começo a linha onde começa minha dor
Delimitações não importam para mim
Maldito parágrafo que começa dois dedos depois da margem!
Meu parágrafo fica à margem,
Meu ponto final fica onde ou quando minha dor já foi expressa
(Ou meu amor)
Que nunca, nunca acaba
Maldito ponto final que não dá cabo ao sofrimento em meu peito!
Os pontos finais dos meus versos são apenas recomeços de infinitudes malcriadas de problemas.

Camila Oleski

Eco


As conversas que não são as suas entediam-me
Dão-me sono

Sou fã da sua infinita dor
Do vazio que sente e
Que é preenchido com o vil viver, frágua, ritmos, palavras e algazarras,
Suas amarguras acalmam minha alma
Nelas vejo que não estou só 
Não....
Vejo que minha humanidade encontra abrigo


A solidão é a presença da vazio
É a ausência do incômodo
Solidão é a visita dos sonhos, é a companhia dos meus eus
Minha companhia na solidão é a saudade que tenho de ti
Esta é presença constante
Esta nunca me deixa só
Em meus sonhos a presença agradável da sua cor atravessa meu mar de tranquilidade
Rouba a quietude aparentemente aconchegante do meu estar.


Camila Oleski

Corpos

Corpos soltos na algazarra
Cabelos flamejantes se jogam na dança
Mãos se encontram ao som da música, cujos dedos se entrelaçam interessados
Bocas e línguas sincronizadas e sibilantes na pronúncia da letra da música que não foi ensaiada
Mas conhecida há muito e, portanto, cantarolada com perfeição

Rostos já vistos
Olhos que já se beijaram
Suores já misturados no abraço de ontem
Flancos saculejantes
Calcanhares suspensos

Está aí a vida:

Na beleza bem vinda da alegria... 

Camila Oleski

Inaptidão ao amor

Gostaria de poder amar.
Almejo experimentar a saudade e
O gosto da boca no reencontro.
A saudade que banha os pensamentos sinestésicos,
Que permeia um dos cantos mais deliciosos e bem vividos da lembrança.
Anseio por um enredo bem sucedido de um amor apaixonado,
Como carnaval cujos corpos dançam grudados no emaranhado de gente
E de sorrisos daquela felicidade que parece que vai ser eterna.
O amor que deita num colchão de rosas cheirosas e macias como minha pele foi um dia.

No lugar disso, uma distinta inaptidão para demonstrar o bem-querer,
para conjugar meu dia com o da pessoa amada.
Minha casa é a solidão cujo silêncio do burburinho que toma conta dos pensamentos me serve de companhia;
Aqui é minha paixão,
Este é o amor que conheço:
O coração que acelera não pelo avistar da pessoa amada e sim pela iminência da chegada e esperada solidão.
A boca que beija o ar apenas inalado por mim mesma;
Os olhos brilhando ao fitar não o semblante do querido,
Mas das páginas do livro sobre a guerra;
O cabelo tocado com carinho por alguém que partiu há muito,
Agora se entrelaça apenas nos dedos da alma que agora escreve,
A poesia visceral de amor escrita para ninguém
A não ser a mim mesma com a lembrança de não ter escrito a pessoa alguma.
Sim, ninguém vai ser minha melhor companhia esta noite!
Meu amor declarado à solidão...

Camila Oleski

Dores n'alma

Capaz de dizer que coisas que não importam
Estou cheia, cheia de inutilidades e inutensílios (como diria o poeta)
Lotada de invivências, inexperiências
Sou aquela que faz chorar o coração
Sou a mágoa latente no coração do infeliz
Sou a rosa que, na mão dos distraídos, fura-lhes o dedo
A amargura no coração de quem foi desprezado
A nota zero do aluno
Sou o tumor que cresce e suga a vida que estava sendo bem aproveitada
E que chega para desiludir e destruir
O caixão que é levado no cortejo e que carrega quem jaz, querido
Sou a lágrima que cai dos olhos enfurecidos
A pétala que, seca, se desprende da flor quando chega o outono
O buraco na barriga do angustiado
Sou a crise existencial do suicida
Sou a podridão da humanidade
A torpeza que rouba a dignidade
Sou a lama que os miseráveis famintos comem para enganar a fome
Os destroços que restaram depois do tufão
Ou aqueles encontrados depois da catástrofe
Da queda do avião, do naufrágio, do capotamento do carro
Aquilo que já foi usado e que agora é lixo
Sou o que foi deixado de lado
O sapato fedido e gasto do mendigo que caminha sem destino
Sou o nó na garganta daquele que queria gritar, mas não lhe é permitido
Sou o soco na cara do oprimido
A lembrança esquecida naquele que queria construir uma história de vida significativa
A sobra de comida rejeitada pelo estômago empanzinado
A ignorância do povo
A mentira que manipula a massa de manobra
O senso comum que aliena o cidadão
O barulho que não deixa o trabalhador dormir depois de um dia cansativo
O suborno
O estupro
A propina
A palavra que ofende
A chibatada
A tortura
A dívida
O roubo
O vil

Camila Oleski



O outro

Sinto a raiva que sente
Choro pelo quê chora
Sinto a aflição que lhe aflige
Posso entender a mágoa que lhe magoa
Sentir na pele a dor daquele soco que deram em seu rosto
Daquele arranhão que a fez sangrar
Viver a solidão que vive
A revolta que a fez brigar
A paixão que te cega
Cantar a mesma canção que você
Dizer pra você o que entendo de como você está vendo as coisas
Acolher a sua dor da perda
Abraçar a sua causa
Posso estar junto a ti por um tempo
Olhar pela sua ótica a sua vida
Carregar junto com você o fardo das dificuldades
E sentir o quanto isso está sendo pesado
Aceito seus medos,
Caminhando ao seu lado.
Não posso ser você, mas posso entender o que está me dizendo e aceitar com amor isso
Posso caminhar com você no sentido de uma vida melhor
E saber que ali quem chegou foi apenas você!

Camila Oleski

Amada solidão

Estava acostumada à solidão. Mas antes de tê-la como família, passava horas em minha minúscula casa, entregue a insensatos pensamentos, cansada e indefesa. Uma manta e seu calor me trazia mentirosa sensação de aconchego. Meus breves momentos de bem estar aconteciam durante as tempestades, cujas trovoadas lá fora faziam com que estranhamente me sentisse acolhida pelo céu como se ele fosse meu único amigo.

Camila Oleski

A última notícia

A última notícia que tive de mim foi de você  Que me disse que eu havia me perdido  E que achava que eu não podia ir tão longe Mas fui ...