Corpos

Corpos soltos na algazarra
Cabelos flamejantes se jogam na dança
Mãos se encontram ao som da música, cujos dedos se entrelaçam interessados
Bocas e línguas sincronizadas e sibilantes na pronúncia da letra da música que não foi ensaiada
Mas conhecida há muito e, portanto, cantarolada com perfeição

Rostos já vistos
Olhos que já se beijaram
Suores já misturados no abraço de ontem
Flancos saculejantes
Calcanhares suspensos

Está aí a vida:

Na beleza bem vinda da alegria... 

Camila Oleski

Inaptidão ao amor

Gostaria de poder amar.
Almejo experimentar a saudade e
O gosto da boca no reencontro.
A saudade que banha os pensamentos sinestésicos,
Que permeia um dos cantos mais deliciosos e bem vividos da lembrança.
Anseio por um enredo bem sucedido de um amor apaixonado,
Como carnaval cujos corpos dançam grudados no emaranhado de gente
E de sorrisos daquela felicidade que parece que vai ser eterna.
O amor que deita num colchão de rosas cheirosas e macias como minha pele foi um dia.

No lugar disso, uma distinta inaptidão para demonstrar o bem-querer,
para conjugar meu dia com o da pessoa amada.
Minha casa é a solidão cujo silêncio do burburinho que toma conta dos pensamentos me serve de companhia;
Aqui é minha paixão,
Este é o amor que conheço:
O coração que acelera não pelo avistar da pessoa amada e sim pela iminência da chegada e esperada solidão.
A boca que beija o ar apenas inalado por mim mesma;
Os olhos brilhando ao fitar não o semblante do querido,
Mas das páginas do livro sobre a guerra;
O cabelo tocado com carinho por alguém que partiu há muito,
Agora se entrelaça apenas nos dedos da alma que agora escreve,
A poesia visceral de amor escrita para ninguém
A não ser a mim mesma com a lembrança de não ter escrito a pessoa alguma.
Sim, ninguém vai ser minha melhor companhia esta noite!
Meu amor declarado à solidão...

Camila Oleski

Dores n'alma

Capaz de dizer que coisas que não importam
Estou cheia, cheia de inutilidades e inutensílios (como diria o poeta)
Lotada de invivências, inexperiências
Sou aquela que faz chorar o coração
Sou a mágoa latente no coração do infeliz
Sou a rosa que, na mão dos distraídos, fura-lhes o dedo
A amargura no coração de quem foi desprezado
A nota zero do aluno
Sou o tumor que cresce e suga a vida que estava sendo bem aproveitada
E que chega para desiludir e destruir
O caixão que é levado no cortejo e que carrega quem jaz, querido
Sou a lágrima que cai dos olhos enfurecidos
A pétala que, seca, se desprende da flor quando chega o outono
O buraco na barriga do angustiado
Sou a crise existencial do suicida
Sou a podridão da humanidade
A torpeza que rouba a dignidade
Sou a lama que os miseráveis famintos comem para enganar a fome
Os destroços que restaram depois do tufão
Ou aqueles encontrados depois da catástrofe
Da queda do avião, do naufrágio, do capotamento do carro
Aquilo que já foi usado e que agora é lixo
Sou o que foi deixado de lado
O sapato fedido e gasto do mendigo que caminha sem destino
Sou o nó na garganta daquele que queria gritar, mas não lhe é permitido
Sou o soco na cara do oprimido
A lembrança esquecida naquele que queria construir uma história de vida significativa
A sobra de comida rejeitada pelo estômago empanzinado
A ignorância do povo
A mentira que manipula a massa de manobra
O senso comum que aliena o cidadão
O barulho que não deixa o trabalhador dormir depois de um dia cansativo
O suborno
O estupro
A propina
A palavra que ofende
A chibatada
A tortura
A dívida
O roubo
O vil

Camila Oleski



O outro

Sinto a raiva que sente
Choro pelo quê chora
Sinto a aflição que lhe aflige
Posso entender a mágoa que lhe magoa
Sentir na pele a dor daquele soco que deram em seu rosto
Daquele arranhão que a fez sangrar
Viver a solidão que vive
A revolta que a fez brigar
A paixão que te cega
Cantar a mesma canção que você
Dizer pra você o que entendo de como você está vendo as coisas
Acolher a sua dor da perda
Abraçar a sua causa
Posso estar junto a ti por um tempo
Olhar pela sua ótica a sua vida
Carregar junto com você o fardo das dificuldades
E sentir o quanto isso está sendo pesado
Aceito seus medos,
Caminhando ao seu lado.
Não posso ser você, mas posso entender o que está me dizendo e aceitar com amor isso
Posso caminhar com você no sentido de uma vida melhor
E saber que ali quem chegou foi apenas você!

Camila Oleski

Amada solidão

Estava acostumada à solidão. Mas antes de tê-la como família, passava horas em minha minúscula casa, entregue a insensatos pensamentos, cansada e indefesa. Uma manta e seu calor me trazia mentirosa sensação de aconchego. Meus breves momentos de bem estar aconteciam durante as tempestades, cujas trovoadas lá fora faziam com que estranhamente me sentisse acolhida pelo céu como se ele fosse meu único amigo.

Camila Oleski

Quando esqueço de mim

É intensa a ligação que por ti alimento,
É meu muso inspirador.
Como todo o céu que desvela o passado
Assim é meu amor
que perdeu a flor a você colhida.
Aquele rio que correu por nossos corpos n’outro dia
Agora está com um pedaço de mim que foi levado pelas águas
E de você quando ao meu corpo se deu...
Sozinha estou e deixo minha mágoa rasgar-me o rosto,
Já que assim esqueço um pouco de mim.
Pensando em ti
Vi minha vida passar de repente
O que era futuro
Agora virou presente
O que era canto virou lembrança
E o que éramos nós, sonho.

Camila Oleski

Uma verdade


Nada melhor que a verdade para vivermos em paz
Qual é a sua verdade, meu bem?
Talvez não haja verdade
Estamos aquém do que esperamos
A naturalidade forçada das relações me entristece;
A resposta, 
Esta nunca virá a não ser com grandes sermões os quais dispenso veementemente
Mas o buraco fica,
Este é verdadeiro e sincero
O vão cavado em meu peito,
Este é presente e perene;
A dor do adeus,
Esta não é alheia e muito menos forjada.


Camila Oleski

A última notícia

A última notícia que tive de mim foi de você  Que me disse que eu havia me perdido  E que achava que eu não podia ir tão longe Mas fui ...