Acontecivento

Na teia das relações, tecemos histórias.
No seio das histórias, brotam sentimentos.

Como deduzir um futuro com a exatidão de uma equação matemática?
Como concluir com a veracidade das fórmulas físicas um acontecimento?
Acontecivento...

O futuro, as relações, os sentimentos não podem ser calculados, medidos ou testados. 
Mesmo assim, entregamo-nos, jogamo-nos no abismo profundo da ilusão do acaso. 
Só isso.

O máximo que se tem é probabilidade. 
O provável já é suficiente para um suicídio. 
E, se tivermos certeza do fracasso (usando a ingênua e, por isso, pérfida, probabilidade das vivências humanas),
Aí vem o sentimento - esta enigmática, mas altamente mobilizadora ferramenta da fraqueza humana -,
 o coração

Se atira nos braços do destino e realiza tudo como se fosse a primeira vez,
Como se não houvesse passado, nem amanhã.

Somente presente....

Camila Oleski

Dispenso Monteiro Lobato

Acho que chocada é um eufemismo pra traduzir o que senti quando li "Negrinha" de Monteiro Lobato. É um conto insano que diz respeito ao tratamento dispensado por uma mulher abastada dado à criança negra num período "pós-escravidão", tratamento este camuflado de boa ação. Coloca-a como um objeto, um saco de pancadas, utiliza termos pejorativos e pesadíssimos para se referir à criança pra não dizer mais. Espero que a Unicamp, ao resgatar e solicitar um texto desse para o vestibular, não deixe passar despercebidas as questões do preconceito, direitos humanos etc. claramente presentes naquela aberração de texto, que incrivelmente já foi considerado em 2000 um dos melhores contos do século XX. 

"Conservava Negrinha em casa como remédio para os frenesis. Inocente derivativo: - Ai! Como alivia a gente uma boa roda de cocres bem fincados!..."

"A excelente dona Inácia era mestra na arte de judiar de crianças. Vinha da escravidão, fora senhora de escravos - e daquelas ferozes, amigas de de ouvir cantar o bolo e estalar bacalhau. Nunca se afizera ao regime novo - essa indecência de negro igual a branco e qualquer coisinha: a polícia!"

"O corpo de Negrinha era tatuado de sinais, cicatrizes, vergões. Batiam nele os da casa todos os dias, houvesse ou não houvesse motivo. Sua pobre carne exercia para os cascudos, cocres e beliscões a mesma atração que o ímã exerce para o aço. Mãos em cujos nós de dedos comichasse um cocre, era mão que se descarregaria dos fluidos em sua cabeça. De passagem. Coisa de rir e ver a careta..."

Camila Oleski

Arco-Íris

Pensamos, logo existimos.
Sentimos, logo amamos.

Construímos nós dois como o autor que escreve o livro:
palavra por palavra, 
folha por folha e 
capítulo por capítulo;
Como o poeta que escreve aquela estrofe sobre o infortúnio da distância que separa os amantes;

Somos o "eureca!" quando a maçã caiu na cabeça de Newton. 
Somos como o mar de uma praia selvagem e a cidade que não para, 
tensa e aborrecida. 
Com você construo idéias como o escultor desenha num pedaço de pedra amórfico,
Aquilo vira vida!
Transformamo-nos como a lagarta em crisálida e depois em borboleta.

E regamos.
Regamos esta flor como uma criança rega a semente que plantou ansiosa por ver seu primeiro desabrochar.
Não, meu bem, o amor não é egoísta
O amor é pintado de arco-íris, 
Ao passo que fica no céu com os amantes que flutuam,
tamanho o amor que sentem.

Camila Oleski

A FOLHA

O inverno congela, mas o coração continua quente,
 O inverno aproxima.

A folha seca que cai quer chegar ao chão e adubar o solo.
O vento gélido que sopra quer beijar meus cabelos e acariciar meu pescoço nu;
O rio corre ansiando encontrar o mar;
A lágrima que cai quer encontrar a boca que lamenta;

(Ai dos que lamentam...
Pensam que conhecem toda a tristeza do mundo,
querem encontrar casa naquele que consola.
O meu lamento quer encontrar abrigo naquele que ecoa);

As minhas palavras querem encontrar o sentido;
Minhas mãos querem encontrar as suas;
Meu nariz que desvela o aroma perfeito;
O amigo quer encontrar o abraço;
A boca, o intenso laço;
A cabeça preocupada quer amnésia;
A dor quer encontrar alívio;
O adúltero, um álibi...

Desencontro na densa névoa,
carregada de mistério.

A tal folha que caiu não queria encontrar meu parabrisa.

Camila Oleski

METALINGUAGEM

Escrevo em verso, porque eu quero decidir onde começar e terminar o meu fluxo de sentimento
Esta linha não começa onde se inicia um parágrafo, numa folha delimitada por marcações de margens
Não quero regras quando falo do que sinto
Começo a linha onde começa minha dor
Delimitações não importam para mim
Maldito parágrafo que começa dois dedos depois da margem!
Meu parágrafo fica à margem,
Meu ponto final fica onde ou quando minha dor já foi expressa
(Ou meu amor)
Que nunca, nunca acaba
Maldito ponto final que não dá cabo ao sofrimento em meu peito!
Os pontos finais dos meus versos são apenas recomeços de infinitudes malcriadas de problemas.

Camila Oleski

Eco


As conversas que não são as suas entediam-me
Dão-me sono

Sou fã da sua infinita dor
Do vazio que sente e
Que é preenchido com o vil viver, frágua, ritmos, palavras e algazarras,
Suas amarguras acalmam minha alma
Nelas vejo que não estou só 
Não....
Vejo que minha humanidade encontra abrigo


A solidão é a presença da vazio
É a ausência do incômodo
Solidão é a visita dos sonhos, é a companhia dos meus eus
Minha companhia na solidão é a saudade que tenho de ti
Esta é presença constante
Esta nunca me deixa só
Em meus sonhos a presença agradável da sua cor atravessa meu mar de tranquilidade
Rouba a quietude aparentemente aconchegante do meu estar.


Camila Oleski

Corpos

Corpos soltos na algazarra
Cabelos flamejantes se jogam na dança
Mãos se encontram ao som da música, cujos dedos se entrelaçam interessados
Bocas e línguas sincronizadas e sibilantes na pronúncia da letra da música que não foi ensaiada
Mas conhecida há muito e, portanto, cantarolada com perfeição

Rostos já vistos
Olhos que já se beijaram
Suores já misturados no abraço de ontem
Flancos saculejantes
Calcanhares suspensos

Está aí a vida:

Na beleza bem vinda da alegria... 

Camila Oleski

A última notícia

A última notícia que tive de mim foi de você  Que me disse que eu havia me perdido  E que achava que eu não podia ir tão longe Mas fui ...