Uma verdade


Nada melhor que a verdade para vivermos em paz
Qual é a sua verdade, meu bem?
Talvez não haja verdade
Estamos aquém do que esperamos
A naturalidade forçada das relações me entristece;
A resposta, 
Esta nunca virá a não ser com grandes sermões os quais dispenso veementemente
Mas o buraco fica,
Este é verdadeiro e sincero
O vão cavado em meu peito,
Este é presente e perene;
A dor do adeus,
Esta não é alheia e muito menos forjada.


Camila Oleski

Calabouço

No calabouço de minh’alma
Prendo todos os meus medos

Aqueles que tive o infortúnio de conhecer
Sortilégios, desalentos, aberrações, transgressões
Na masmorra do meu coração
Escondo meus desafetos, mas também
E, como de um jeito proibido de ser,
Guardo aquele que não quero perder
Amante que se banha no meu regato de prazer

Camila Oleski

Festa na chuva


Olho para a chuva

Lembro-me da vida que ria pra mim
Os rostos sem rugas
Molhados pela festa na chuva
Pulo nas poças como quem pula a parte de mim que dói
Olho para o céu, cinza... 
Dégradé de cores que não são primárias, mas essenciais
Firmamento que me diz que a água não vai parar tão cedo
E então sinto os pingos batendo em meu rosto e respingando já quentes em outras partes do meu corpo de menina
Água que escorre pela pele vira cachoeira na curva do umbigo
Olho para outro, feliz
E ambos, apenas com os olhos de cumplicidade de um momento pleno, 
decidem continuar brincando!

Camila Oleski

Chuva

Chuva,
Molhe minh’alma sôfrega,
Regue meu peito dolorido pela despedida,
Lave o suor seco de meu rosto vivido,
Amordace minha boca ávida,
Cale meu ventre vazio, oco,
Pinte a minha pele de ocre, quero afundar nesta terra lamacenta

Chuva,
Acalente ao menos minha noite eivada de dor,
Seu carinho mitiga minha sede de querer mais,
repouse em meu colo quente e embaçado, pois ofegante.

Camila Oleski

Noite

A noite é minha amiga
Seu silencio, meu afago
No âmago do meu desassossego existe, pelo menos, uma trégua:
A decente, amiga e maravilhosa noite
Sob o luar finjo que sou a pessoa mais fortuita do mundo
Consigo transcender aquilo que amargura
Consigo deixar o pesar de lado
É bela e famigerada aos amantes e boêmios
Mas a mim é a companhia ilibada, que apenas assiste quieta e persistente
Consente com as minhas indignidades...
Minhas imundices parecem recônditas numa noite de lua nova

Camila Oleski

Fragmento de prosa

“Naquela tarde, seus pensamentos vagavam por uma época em que se sentia livre para viver mais em paz. Era uma forma de aliviar sua ansiedade que aumentava toda a vez que pensava na possibilidade de se enveredar por outros caminhos que não os que estava acostumado. Tinha pavor de pensar em cruzar com pessoas que não eram aquelas com as quais trocava olhares rasos de bom dia. Para ele, a época de viver sendo ele mesmo parecia utópica tamanho era o emaranhado no qual tinha se envolvido. Simplesmente não conseguia pensar, ter olhar crítico, não conseguia ter opinião sobre as coisas. Aquele sofrimento parecia não ter fim. Sentia que sua época de viver não era aquela em que se encontrava agora. Estava encarcerado num espaço-tempo. Muitas vezes, pegava-se estranhando o que seu melhor amigo lhe dizia. Parecia não compreendê-lo, pois aquela linguagem, já não a compreendia mais.”

Camila Oleski




                                                                                                                           

TALVEZ

Eu prefiro o talvez
Talvez é a certeza de todas as possibilidades
Talvez é sempre a melhor escolha
É a certeza do “quem sabe?”!
No talvez, o acontecimento vira surpresa
É o compromisso com o quiçá,
É a certeza do inusitado, inédito
É no acaso do talvez que as melhores coisas acontecem, as melhores pessoas aparecem
É viver tudo como se fosse a primeira vez
É não ser escravo dos próprios quereres
Camila Oleski

A última notícia

A última notícia que tive de mim foi de você  Que me disse que eu havia me perdido  E que achava que eu não podia ir tão longe Mas fui ...