A última notícia


A última notícia que tive de mim foi de você 
Que me disse que eu havia me perdido 
E que achava que eu não podia ir tão longe
Mas fui
E me perdi
Você disse que eu já não era mais a mesma.

"Como você me deixou eu me perder?!", gritei indignada.
"Você se perdeu sozinha, foi impossível mantê-la aqui. Você sabia que era um caminho sem volta", retrucou.

Hoje sou uma gigante que vive numa velha mansão de janelas azuis del-rey feitas de madeira de lei
Uma gigante que só sai do quarto para aterrorizar os novos moradores 
Eles se assustam comigo

Sou eu quem testa as montanhas-russas dos meus sonhos
Elas estão quebradas 
Mas não caio
E sinto frio na barriga 

Posso ser um bebê que, depois de acidentado, vai a um hospital
Mas ninguém liga para meus machucados

Sou aquela que eu nunca queria ter sido
Sou mais fera do que bela.

Camila Oleski

O poema feio

Tentei buscar por palavras para uma tradução fiel do que sinto nesse momento
Mas o que achei foram silabas que, quem sabe, unidas podem até formar uma oração.
É inútil buscar explicação

À noite a dor aumenta
Deitada na cama,
Só com o pensamento gritando fatos
É uma tortura
Fico tentando tirar os nós
Eles são apertados
Até quando?

Eu sou a presa que,
No último nanossegundo antes de receber a fincada dos dentes do algoz na jugular, desiste e se entrega.
(É isso que se vê nos meus olhos de quem morre?)

Vou deixar o rio levar toda a minha mágoa
Lavar meus cabelos que deixei crescer com o meu amor
Lavar minha dor
E quem sabe meu bem querer

Até quando vai fugir de mim?
Até quando privar-me-á da verdade?
As letras saem doloridas e turvas pelas lágrimas

Nada disso traduz a verdade de um coração traído
Nada
Achei lágrima,  dor e tristeza

Quando olho, é feio.
O poema feio
Esse será o nome.

O molde


Pierre era um artista plástico renomado por esculpir manequins perfeitos. Foi durante uma exposição de pinturas de estilo renascentista que conheceu Caliandra. Ele queria ter novas ideias e inspirações para seu trabalho, e ela era apenas visitante. Pierre a convidou para fazer seu molde, para ser seu manequim, “Seu corpo é simplesmente perfeito!”, bajulou. Ela aceitou e nunca mais foi vista.

No mês seguinte, Pierre iria fazer uma enorme exposição que levaria seu próprio nome e todos os seus trabalhos: a verdadeira expressão da sua arte. Foi um grande alvoroço.

O formato do seu corpo era perfeito, uma escultura semelhante à do “Escravo moribundo”, de Michelangelo. Sua expressão de medo e angústia mobilizou o público. Para todos, ficou claro que se tratava de uma exposição póstuma.

De longe, ela, a “ghost writer” por trás da obra, observava satisfeita. O assassino sempre retorna à cena do crime, é o que todos dizem.

Camila Oleski

A poça

Raul era um homem de quase trinta anos que gostava de aventuras. Já havia saltado de paraquedas inúmeras vezes, mergulhado com tubarões, voado de balão, escalado o Kilimanjaro. Outra coisa que gostava de fazer era andar de moto correndo pelas estradinhas mal capeadas e de terra. Gostava de sentir o ar puro invadindo seus pulmões sem que precisasse respirar.
Numa tarde, corria com sua moto numa estrada vicinal. Chovia muito. Viu um alagado que formava uma poça imensa. Decidiu passar pelo meio, já que não havia outro espaço na estrada. Foi bem pelo meio, de modo que espirrou os jatos de água suja barrenta para os lados.
Lá pelo meio da pequena lagoa, sentiu-se sem chão. Mas seu estranhamento diante dessa nova sensação não foi suficiente para tirá-lo daquela situação. Afundou. Sua moto e seu corpo iam ficando submersos num cerco de água. Raul viu seu corpo indo cada vez mais fundo na poça que tinha infinitos metros de profundidade. Estava completamente atônito com o que estava acontecendo.
Depois de tanto afundar sem achar o chão, percebeu que não havia outra escapatória a não ser nadar. Deu grandes braçadas até cansar. Nadou mais e cansou. Queria ver o fim daquele labirinto de águas e, claro, queria se salvar. Continuou. Foi apenas depois horas nadando que conseguiu sair. Já completamente exaurido. Sua moto havia se perdido no fundo da maldita poça. Raul chegou ao oceano e viu a praia. Quase desmaiando, chegou até ela.

Camila Oleski

Poema do não-dito

A fala transforma quando cala,
Quando vem do silêncio.
A fala que nunca tinha sido dita
É a concretude do sentimento.
Procuro romper silêncios:
A batalha sórdida por algo que faça sentido.

Atravesso a escuridão do inaudível.
Meto-me nesta trilha obscura, fatigante e longa.
É uma floresta escura, cujos barulhos desconhecidos ganham em meus sonhos a força de um dragão.
Olho ao redor e acho densa a vegetação.
Quero achar um enunciado para meu não-dito,
Mas aquele dragão ateia fogo em minhas costas e as fazem fritar.
Apesar da dor, acostumo-me...
Devaneios tomam conta dos meus pensamentos mais racionais como se minha cabeça buscasse por saídas menos doloridas para traduzir a realidade.


Eu sou a flor com espinhos e a floresta é a minha casa.

Labirinto Obsceno

  Estava praticamente impossível achar a saída daquele labirinto escuro, insólito e obsceno. Vi-me desnorteado e sem escapatória. Minhas mãos tateavam em volta na tentativa de traçar um caminho em meio ao emaranhado. Minha boca, aberta, tentava buscar ar sem sucesso num abismo hermeticamente entrelaçado. Resfoleguei. Quase sufoquei. 
  Finalmente vi uma luz e corri até ela. Senti um alento imenso. Até que enfim achei a saída. Com as mãos, joguei para o lado os tufos de cabelo dela. Respirei como num reflexo de quem acabou de passar por uma experiência de quase morte. Senti sua fragrância que me fez lembrar o motivo de eu estar ali. Achei o seu pescoço. Comecei a beijá-lo com volúpia. Os corpos se entrelaçaram, os suores e salivas se misturaram. Por fim, ouvi o gemido da sua voz. Agora um pouco mais agudo e estridente. Em seguida veio o meu um tanto tímido e moribundo.


  No dia seguinte, a manchete que chamava atenção da população no caderno policial do jornal local dizia: “Jovem morre asfixiado no cabelo da amante.”

Camila Oleski

A tosse

A tosse piorava a cada dia. Inicialmente era leve, uma coceirinha na garganta apenas. Surgiu depois de uma noite fria de inverno. Tinha tido uma discussão política com seus amigos. Estava incrédula, porque a população não se unia diante da reforma da previdência e trabalhista que o governo estava prestes a implementar com sucesso, já que estava sendo apoiado pela maioria do congresso. Foi uma noite intensa, falou muito e espinoteou.

Depois disso passou a uma tosse seca que, quando vinha, tinha que despejar para fora. As noites de inverno em São Paulo estavam frias como de costume. Da boca saía aquela neblina quando se falava. Era uma nuvem leve, carregada de água e coceira.

Trabalhava na redação de um jornal renomado da Capital. Para a próxima coluna estava elaborando um texto sobre a agilidade com que o governo conseguiu apoio dos deputados para as reformas descabidas que queria aprovar em menos de um ano de gestão. Seu editor havia lhe falado para ter cautela a respeito das palavras grosseiras que usava. Não era novidade que o jornal apoiava o golpe para a queda da presidenta.

“Cautela?”, pensou ela revoltada. O jornal estava tentando limitar também o trabalho dos colunistas. A tosse veio como uma onda revoltada que quebra ainda longe da segurança da praia. Ela estava em frente ao editor, que falava sobre seu texto impertinente. Tossiu de leve para não atrapalhar a fala do homem. Ele fez um silêncio contundido. Ela olhou para ele e viu sua careta. A próxima onda de tosse veio, e como viu que não conseguia segurar, tossiu como se não houvesse amanhã e também com o intuito de atrapalhar a fala dele apenas uma vez. Deu um suspiro profundo, preparando-se para dar cabo daquela coceira com mais eficiência. Soltou uma, duas e, finalmente, três tossidas grandes. Estava fora de si, pois aquela sua tosse convulsiva a obrigava a voltar a atenção a si mesma com o intuito de contê-la. Quando retornou ao editor, ele estava visivelmente pálido com a mão na barriga. Sua camisa e gravata estavam desarrumadas como se tivesse passado um tufão dentro da redação, mas atingindo somente ele. Seu editor berrou que ela fosse embora, mas fez isso quase sem fala, já que as pancadas haviam sido muito, mas muito doloridas. Ela se retirou sabendo que havia descarregado aquela tosse no pobre, mesmo sem ter a intenção de agredi-lo.

Durante a caminhada para casa, naquela noite fria, Tassiana lembrava-se das determinações feitas pelo seu editor. Tossia muito, e, com isso, aproveitava para aumentar a grande população de animais peçonhentos e nojentos da terra. Aranhas, ratos, cobras, sapos e baratas saiam da sua tosse quanto mais se lembrava da discussão com aquele homem cuja justiça não fazia parte do seu vocabulário. Queria esquecer o que tinha acontecido. “Preciso relaxar, essa tosse está se tornando insuportável”, sofreu ela. São Paulo estava congelante, então os animais nascidos da tosse logo corriam para procurar refúgio nos cantos e no esgoto da sujeira da Praça da República.

O médico estava marcado para o dia seguinte, e Tassiana desejava muito se libertar daquela enfermidade devastadora. A noite foi terrível, os sintomas apareciam quanto mais pensava nas aflições daquele dia.

A médica era uma senhora. Olhava para Tassiana com aquela sabedoria desconfiada, após a doente relatar seus sintomas. “Ontem tossi socos no estômago do meu chefe! Fiquei chocada, doutora. Por favor, me ajude!”. Era um atendimento de encaixe. Tassiana havia aguardado bastante na sala de espera e estava aflita para descobrir qual remédio ia curá-la. Parecia que o tempo nunca passava e aquela anciã não tinha aberto o bico para dar nenhuma pista a respeito do diagnóstico. Tassiana tossia lesmas no consultório, lesmas e tartarugas. Tinha ficado abismada com a sua capacidade de expectorar um casco tão duro de tartaruga. Dra Dolores tinha lhe agraciado com um balde para que ela expectorasse os animais.

“Hum...”, disse a doutora. “Você teve contato com alguma pessoa doente? Alguém que parecia estar fraca e triste?”.

“Doutora Dolores, sou jornalista e, portanto, entrevisto muitas pessoas para meu trabalho, várias delas, muito tristes e doentes, pessoas que não têm acesso a hospital e médico de qualidade. Mulheres espancadas pelo marido, pessoas desabrigadas pelas enchentes, crianças molestadas sexualmente. Não sei dizer qual delas não estava doente. O mundo está doente! Ultimamente ando fazendo reportagens sobre política, tenho tido contato com vários políticos.”, reclamou a enferma.

“Bem...”, revelou a doutora, “Tassiana, o que você tem chama-se Engole Sapo”, dizendo em seguida o nome científico quase impronunciável e do qual a moça esqueceu logo em seguida. Dolores diagnosticou com muita sabedoria: “É uma doença que acaba transbordando, literalmente, os sapos engolidos. É psicossomática.” Tassiana estava indignada, embasbacada, coitada. Afinal, como ela iria trabalhar naquele estado? “Na verdade, existe uma erva para infusão indicada para tratar desse mal, o Amansa Senhor. Ele serve para a afecções bucais e bronquite, impedindo assim que os bichos saiam, digamos assim...”, e abriu um sorrisinho meio sem graça, com o qual Tassiana não compactuou.


De volta em casa, Tassiana ficou dias ainda soltando os bichos e tomando o chá. A tosse vinha e com ela os bichos e reações mais grotescos. Aquele tempo fez com que ela pensasse nas razões do seu corpo. Refletiu sobre a forma como lida com o que as pessoas falam para ela. As pessoas têm seus demônios, constroem fantasias, criam histórias e formas de agir para preencher algumas informações que têm a ver, em grande parte, com aquilo que são. A verdade por trás da vida representava um mistério para ela. Pessoas vendem a alma e prejudicam toda uma população para receber benefícios financeiros. Sim! Aquilo era o sapo que ela estaria engolindo. Naqueles dias, percebeu que a natureza da vida não é permanente e sim fluida, mesmo que isso pareça nojento. Tassiana finalmente descobriu de onde vinha o sapo. 

Camila Oleski

Epitáfio

A morte é sempre um mistério que intriga as pessoas. Morrer é passar de um estado a outro: da consciência à ignorância, isto é, deixamos o mundo que conhecemos e entramos naquele ao qual jamais tivemos contato. Passamos daquilo que conhecemos ao nível do que não conhecemos, para o mistério mais profundo.

Dizem os estudiosos que, quando uma pessoa perde alguém ou alguma coisa muito importante, vive o luto. E esse luto é dividido em 5 estágios. No primeiro, há a negação. O enlutado não quer entrar em contato com a informação da perda, se nega a falar no assunto. No segundo estágio, há uma raiva muito grande, a pessoa não se conforma com a perda, sente-se injustiçada. No terceiro, estágio há uma necessidade de reconstrução, de reorganização da vida, afinal, é necessário seguir. Na quarta fase há a depressão, a consciência de que se está só, o enlutado se retira do convívio social. Tristeza. É só na quinta fase que ocorre a aceitação da perda, o indivíduo se conforma com a ausência permanente.

Lorena chegou ao funeral bem triste. Seus olhos, cheios de lágrimas. Ela se lembrava de como a inteligentíssima Elizabeth Bennet havia conhecido aquele homem magnífico. Ele, da alta sociedade e ela, de uma família humilde, mas não menos atrevida. Inicialmente, Elizabeth o achava muito cheio de si, esnobe. No entanto, logo caiu nos encantos naquele nobre homem de bom coração.

Ao redor do funeral, havia policiais e soldados. Todos mal encarados pediam para formar filas, se quisessem se despedir do morto. Estavam todos muito abismados com aquela tragédia. 

No luto, os mais próximos, normalmente, pensam em como vai ser a vida sem o ente querido ou no quanto ele sofreu antes de morrer. Pensam em como vai ser sua própria morte e, via de regra, chegam à conclusão de que o mais importante da vida é o amor. Amar as pessoas acima de tudo. Afinal, o que mais lhes resta?

Antonio se lembrou das viagens que tinha feito com o falecido. Daquela velha cidade no interior de Minas para onde haviam viajado nas férias. Veio à tona o rosto daquela pobre senhora talhado por rugas que conheceram e que lhes contou sobre a perda de seu filho para as drogas, sobre o quanto tentou ajudá-lo a sair do vício, sem sucesso. Era triste saber que não ia mais vivenciar tantas emoções com seu amigo.

As pessoas iam chegando com flores. Crisântemos, a flor mais pertinente em funerais. O local estava com um perfume de Crisântemos e morte. Carlota chegou também carregando Crisântemos brancos. Ela sabia que a morte já estava anunciada. Seu amigo estava sabendo demais e contando a todos a verdade. Carlota sabia que o conhecimento gera poder à população e, com isso, uma vontade de ter uma vida mais digna. “Já dizia Paulo Freire”, pensou ela, “Seria ingenuidade demais esperar que a elite, a oligarquia desenvolvesse uma forma de educação que proporcionasse às classes dominadas perceber as injustiças sociais de maneira crítica”. Ela sentiu um orgulho no peito, sentiu que o amigo havia proporcionado momentos incríveis de conhecimento, dos quais jamais esqueceria. “Ele plantou a semente!”, sussurrou para si mesma. Com certeza, Carlota estava na última fase do luto: a aceitação da morte. No entanto ela sabia que a luta, esta estava apenas começando. Era um momento de guerra e, naquele momento, as autoridades haviam declarado extinto o que havia de mais importante que era o conhecimento.

Todos presentes no velório, cada um em sua fase do luto. Os policiais e autoridades cumpriam seu dever contendo a população. Dentro de cada pessoa um sentimento semelhante, mas não igual, já que cada um havia se relacionado com o falecido de formas diferentes. Uns procurando distração, outros, conhecimento. Existiam aqueles que procuravam autoajuda e tinha até os que queriam conselhos de investimento. Estavam todos lá. Era um dia memorável e triste.

Finalmente, chegou a hora de se despedir para sempre. Uma cova rasa foi cavada e, na lápide, havia as seguintes palavras: Aqui enterramos os livros, proibido desenterrar sob pena de morte.   

Camila Oleski


A gaiola

Naquela manhã, o homem não ouviu o canarinho cantar. Encucou e foi ver. Na gaiola, estava a pequena ave cujo amarelo resplandecia feito o sol ao amanhecer. O homem examinou, olhou e não viu nada que pudesse estar impedindo a ave de cantarolar. Passou o dia e a casa, que antes era amarela, foi ficando cinza. Já era noite e o homem foi pra cama.

No dia seguinte, o homem acordou, mas viu que não era cedo: o dia havia começado há muito tempo. “Raios de ave!”, reclamou. Foi até a gaiola e a ave estava lá, amarelinha. Comia, bebia e pulava de um poleiro a outro, faceira.

O dia passou cinza. O sol, antes amarelo, estava pretejando. As árvores estavam ficando pequenas e desbotadas. O canário, pelo contrário, brilhava feito estrela nova, amarelinho como sol.

O homem, naquele silêncio que gritava aos seus ouvidos, relinchava: “Este passarinho imprestável! Não me acorda mais de manhã, não está cantando e não está fazendo brilhar o dia.” 

A noite chegou e com ela um silêncio mudo. O homem foi para a cama sem ter sono. Tremia devido à raiva daquele animalzinho, mas queria tentar relaxar.

Ao acordar, a sensação dele era de que estava noite ainda, pois não conseguia ver nada, era só escuridão. Caminhou tateando as paredes tentando achar um interruptor. Sentia, no entanto, algo gelado e comprido, como um bastão de ferro. Estranhou. Foi aí que ouviu o passarinho cantar e sentiu uma sensação de alívio. “Finalmente o canarinho está cantando!”, pensou.

Quando o sol raiou brilhante e quente, pôde ver. O terror dominou seu corpo. A gaiola era tão pequena que mal podia se mexer. Do lado de fora, o canário voava e cantava livremente. 

Camila Oleski

O guarda-chuva

Seu marido sempre foi um homem agressivo, que nunca valorizava seus gostos e suas vontades. Um dia ela achou uma cômoda que tinha sido descartada na lixeira e trouxe para casa. Sua intenção era pintá-la e reformá-la, ficaria bem bonita no quarto.

A mulher tinha diversos objetos que costumava reformar e usar em casa, caixas de feira de madeira, revistas e coisas assim. Tudo isso foi juntado ao longo de anos. O marido odiava tudo e pedia que ela se desfizesse das coisas. Eram sacolas e mais sacolas de congressos que havia frequentado, crachás de identificação que guardava de recordação.

“Jogue isso fora!”, esbravejou o marido.

Ela ficava triste. Passou quase seu casamento inteiro ouvindo que tinha que jogar suas coisas fora, mas não o fazia. Ela sentia que quanto mais juntava, mais se sentia acolhida e amada. No lixo dos outros conseguia entrar na casa das pessoas e conhecê-las bem de perto: o que comiam, o que liam, no que gastavam, seus nomes e até suas doenças. Ela se tornava uma espécie de amiga oculta das pessoas. E assim não precisava lembrar que sua vida era entediante e ordinária.

A mulher tinha guardado há muitos anos um guarda-chuva que sua mãe tinha lhe dado. Era um objeto todo enferrujado e o tecido de flores roxas miúdas estava gasto e furado, aquilo já não era um guarda-chuva fazia tempo. No entanto, era a sua querida mãe materializada num objeto. Amava-o tanto como amava sua falecida genitora.

“Jogue essa tralha desprezível fora, mulher!”, bradou o marido.

Ela olhou para o objeto. Estava catatônica e pensativa. Sentia-se diferente. A fala do marido agora soava como um empurrão e não mais como um zumbido de mosquito no ouvido.

Foi assim, tomada de uma súbita vontade de ser o que é, que ela pegou o guarda-chuva e levou-o até o lixo. Era como se uma faca muito afiada passasse por seu coração, sentiu uma dor e uma vertigem lancinantes e fugazes. Logo após, um alívio enorme. Tinha tirado um peso gigantesco das suas costas.
Aquilo foi o primeiro passo seguido de um frenesi. Jogou as revistas de celebridades sobre as quais ficava horas debruçada. As sacolas dos congressos que frequentou na faculdade e os crachás com seu nome escrito pareciam não lhe pertencer mais. E assim foi: roupas velhas e furadas recolhidas com promessas de reparo, caixotes de feira eram as futuras preciosas prateleiras, os livros sobre contabilidade, achados no lixo do vizinho, tornar-se-iam parte do projeto de uma biblioteca coletiva, Cds, potes de maionese entre tantas outras coisas. Tudo isso foi para o lixo.

Quando viu a lua pendurada no céu, tomou consciência de si. Seu corpo estava inteiramente dolorido como se tivesse sido espancada. Havia jogado fora num único dia uma infinidade de velharias inúteis e sem validade, juntadas durante uma vida inteira. Desabou na cama.

Acordou com o som do lixeiro passando e aquele som, que antes significava que tinha que correr, pois eles eram sua maior concorrência, não tinha mais significado. Renata levantou se sentindo muito mais leve. Foi para a cozinha preparar o café. A casa estava perfeita: vazia, limpa.

Com o café pronto, Renata chamou o marido da cozinha mesmo: “Está pronto o café, venha!”.
Um silêncio sepulcral tomou conta da casa. Não veio ninguém.

Camila Oleski

Da janela do ônibus

OLHAR

Olhando pela janela busco o lugar mais longe que meus olhos podem alcançar.

Os olhos são armas:
A carência, sem o olhar, entristece;
A lembrança, sem olhar para o passado, esquece;
O sonho, sem olhar pra dentro, some;
O curioso, sem olhar para o livro, aliena;
A pobreza, sem o olhar do Estado, morre;
A alma sem o olhar da vida, esvai-se.

Meus olhos agora olham o lápis que escreve à procura da palavra certa.
(A ideia sem o lápis se perde)
Mas os verdadeiros e mais profundos sentimentos são inomináveis!
(O sentimento, sem nome, confunde)

Dentro de nós existe um lugar aonde as palavras não chegam.
Um lugar sem-nome, sem-conceitos.
Nesse lugar há um silêncio absoluto porque bocas, sons e ruídos não existem.
O olhar sem palavras é só sentido.

A poetiza sem as palavras é cega.

Camila Oleski

Anti-herói

Dos meus melhores sonhos,
Dos mais profundos nasce um guerreiro
Ele combate a mesmice dos vãos dias,
As ideias insensatas e preconceituosas 
No íntimo, invade a noite que chora pela a ausência de essência 
E a completa, brincalhão e dissoluto
Toma seu lugar nas vozes que clamam pela justiça
Mas em seu âmago teme pela solidão
Por não ter uma chama acalentando seu corpo sedento por sentido
Guerreiro, anti-herói
Sua armadura é tingida de ouro das batalhas vencidas,
Dado seu valor
Intrépido guerreiro, ensine-me a ser gente.
Trave uma luta,
Pingue de suor depois de vencê-la e
Por fim, tome o vinho para aliviar seu peito ofegante e sua boca seca.
Por dentro, ainda não há o alívio de missão cumprida.

Camila Oleski

06/07/2014 - 04/08/2016

Magnólia

Congratulações não servem pra mim.
Condescendo mais com o amor e menos com o ódio,
Mais com mato e nem tanto com asfalto.
Um dia hei de merecer mais abraços e não tanto espaço,
O silêncio que diz mais que a fala,
A mala que sai em viagem para nunca mais voltar,
A matula que contém apenas o essencial.
Benquerença e menos angústia.

Dê-me magnólia!
Rosas são muito belas e cobiçadas, não as quero.
Quero magnólias!
Bálsamo desconhecido,
A pétala sedosa, suave aos olhos,
Ordinária aos distraídos e desavisados.
No entanto, lá permanece, há séculos;
Enquanto árvore, cria raízes,
Arbusta-se quando pertinente e,
Quando buquê, revela sua volúpia e venustidade.
Magnólia, magnânima...

Camila Oleski

Melodia derradeira

Desperto com seu corpo colado ao meu
Seu cheiro devasso;
Deleito-me em sua boca sagaz
A língua que passeia no meu céu
Mãos fustigam minha pele
Embevecidos corpos ardentes
Horas que penso, segundos
Meu despudor em seu corpo suado
Lascivos na penumbra daquele quarto,
Que ouvia o gemido do seu prazer revelado em gozo
Melodia derradeira para um dia de saudade.

Camila Oleski

PATUÁS E PACTOS

Cansada de patuás e pactos
De conversinhas e versinhos
De pensar e hiperventilar
Acabo com a angústia já
Virarei sabiá
Que acaba por cantar e achar sons à meia noite
Sem açoite
E mais quinhão
No turbilhão das tempestades
Sem castidade
Mais paixão


Camila Oleski

MAIO/2014

Democracia demagógica

Na veia da humanidade,
Correm rios de (in)capacidade
Na casca da terra, o homem corre moendo
O fecundo mar morre lenta e gradativamente
O doce rio, onde, antes, nadavam meus avós, agora está pintado de lama
Alegria foi entristecida pelo igual, exatamente pelo mesmo, tédio
Hipocrisia sólida
Democracia demagógica
Demografia manobrável
Os escravos são pintados de cidadão
Cavadas famílias felizes
Dores no peito, solidão na casa cheia
Atos de memória vazios
O que fica, isso sim é permanente,
É conhecido: dor e tristeza.

Camila Oleski

Deitada em seu peito


Deitada em seu peito
Achei a felicidade
Deitada em seu peito
Cortejei o amor
Deitada em seu peito
Estou em casa

Meu peito,
Puído pelas tantas dores e
marcado pelos dissabores e desamores
É preenchido agora,
Mesmo na distancia que se tornou nosso sobrenome,
Deitada em seu peito

Pude ver as estrelas,
Mandacarus nas pedras,
Água salgada
Pude ver palavras de amor e
Dentes sorrindo
Deitada em seu peito

Um coração calmo
Cheio de borboletas
Flores coloridas
Bem querer

Navego por mares desconhecidos
Lugares nunca vistos
Sentimentos nunca vividos

Deitada em seu peito
Agora e depois
Um universo me espera
Uma vida que se constrói
Duas vidas estão ligadas
E hão de morrer assim.

Camila Oleski

Borboleta emplumada

Acordei e vi
Vento jogado no jardim de girassóis
Borboleta emplumada secando o azul do céu
Fadas fazendo sorrisinhos pintavam música com gosto laranja
Na terra, os pés boiavam gastando sola
Mãos que molham o jardim e o cheiro de mato molhado invade o pensamento ausente
A lembrança cai no chão batido e dela brotam mudas de felicidades coloridas
Borboleta emplumada, abelhas fumegantes e beija-dores querem sentir o gostinho daquelas felicidades novas.
É bom!
Deliciam-se...

Camila Oleski

Amálgama


A minha estação é o inverno permanente...
Moro nos montes gelados.
Meu peito é um castelo cujas muralhas não possuem janelas, seteiras ou mesmo portas.
Apenas o frio que corta.
Tão frígida quanto a nevasca que despenca sobre a cidade prestes a ser soterrada, apresento-me diante da vida.

Mas você chegou com a primavera.
Coloriu meus dias,
Plantou palavras e regou meus sonhos.
O inverno encontrou a primavera numa amálgama inusitada.

O inverno é uma velha fria e arrefecida de mágoas
Em cujo solo brotam apenas ervas daninhas
E a primavera, perfumada como os campos de lavanda,
Colorida feito flores do campo
E sedutora como as orquídeas

Ambos se apaixonaram
O inverno, com o álgido toque e sorriso que há muito não se abria, permite que o cinza dos dias de solidão sejam envolvidos pelo esplendor de cores.

Você chegou quando meus olhos só achavam casa nas palavras daquele livro de amor
Meus olhos agora têm os seus
Minhas mãos tocam nas suas como se o amanhã,
que chega com a saudade de mala pronta,
não fosse nascer.
Você chegou e me aceitou como sou:
No meu inverno congelante, você conseguiu achar uma flor que resiste ao frio
Quero você, meu bem, do jeito que é.

Camila Oleski

A última notícia

A última notícia que tive de mim foi de você  Que me disse que eu havia me perdido  E que achava que eu não podia ir tão longe Mas fui ...